"Não se descuide de ser alegre - só a alegria dá alma e luz à Ironia, à Santa Ironia - que sem ela não é mais que uma amargura vazia." - Eça de Queiroz

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Eu sei que ao descer, desço descalço (por Marc Rodrigues)





Eu sei que ao descer, desço descalço,
que o medo ergue-se em espinhos
e o degrau veste de escuro.
Eu sei que a verdade é um laço
bem feito de corda áspera,
em volta de um pescoço curioso.
Eu sei e adormeço num sono calmo.


Só para acordar num momento, pouco despertado
levantar e caminhar de corpo deitado,
procurar uma janela na parede escura,
tropeçar e cambalear no chão sonolento.

Sair à rua, dar de caras com um velho avarento,
que rosna sem ferrar e cospe no cimento
e afaga o pescoço que esconde com um lenço
e esconde no chapéu o rosto que talvez venha a ser meu
e desvia o seu olhar do rosto que talvez tenha sido seu.
Eu sei e acordo de um sonho agitado.

Levanto-me, banho-me, penteio-me, visto-me
engano-me, dispo-me, volto a vestir.
Dei por mim e o tempo passou, uns minutos.
Mas quantos não são a vida toda?
Eu sei e continuo numa vida calma.

Abro a porta e saio.
Eu sei que ao descer, desço calçado,
que o degrau é de madeira de pinho
e a clarabóia cobre-o de luz.
Mas não deixo de sentir espinhos
cravados nos meus pés nus.

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