"Não se descuide de ser alegre - só a alegria dá alma e luz à Ironia, à Santa Ironia - que sem ela não é mais que uma amargura vazia." - Eça de Queiroz

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Á Beira-Mar (por Carolina Lopes)





Outra vez aquele sufoco que eu tão bem conhecia,
o familiar aperto no peito, o já esperado nó
em que me enrolava a garganta,
a dor angustiante que me toldava a alma.

Todo o corpo entorpecido e,
por entre rasgos de lucidez,
, a raiva das palavras de conforto
e o abrasar dos olhares de piedade.

Não aguentava mais, tinha de sair,
projetei-me porta fora, arrastando a longa
cauda branca em direção ao mar.

Deixei-me cair na areia molhada, sentindo o torpor
dos sentimentos abandonar-me e as lágrimas
queimarem-me nos olhos, para no fim se reunirem
à água fria e salgada do oceano.

Não conseguia respirar, asfixiada pela dor,
pela sensação de ver arrancado do meu
peito o meu coração a bater.

Como seria feliz se o tivessem
levado, se o tivesse deitado fora;
como seria feliz se me tivessem
privado da capacidade de sentir.

Mas colocaram-no de novo cá dentro,
amolgado e maltratado por quem o teve nas mãos,
sensível a todo o ardor do desgosto,
inflamado pelas feridas que lhe infligiram.

A água ensopava o meu vestido branco,
dando-lhe uma nova tonalidade de marfim,
gelando-me os ossos a cada nova vaga.

Ali, apenas entre o restolho
das ondas e os soluços calados,
só eu sabia a dimensão do meu sofrimento,
do tamanho da vastidão do azul à minha frente.

Nada mais me restava a não ser a mágoa
incandescente que ensombrava a minha vida.

Deixaste-me sozinha, abandonada no mundo que era teu,
levando contigo todo o meu desejo e esperança.

Mas não te odeio. Não posso odiar
o meu carcereiro dos dias felizes.

Deste-me a felicidade e este foi o preço
que paguei, um preço que não considero alto
pela paixão que me trouxeste, pois trocaria
um só dia desse amor por uma vida inteira.

E que bem que eu amei, todos os dias me
fizeste apaixonar-me de novo, e nesses tempos
fui verdadeiramente feliz. Tudo me é cobrado agora.

A minha alma pelo teu amor parece-me um preço justo.
Lentamente entrei na água, rodeada do maravilhoso
tecido rendado, o véu ondulando ao vento.

Senti-me mais leve, as lágrimas já não ardiam nos olhos,
a respiração mais controlada, suspirei.

Ficou apenas o aperto no coração e o
torpor da água salgada a invadir-me os pulmões.

Hoje perdi a noção (por Pedro Maia)





Hoje perdi a noção do tempo e da realidade,
Já não sei quem sou, nem sei quem devo ser,
Só sei que sou feito de carne e osso,
E que o tempo passa à velocidade da luz.

Deixei de ver a luz ao fundo do túnel,
Os meus olhos estão desfocados de uma realidade
Cada vez mais virtual, cada vez mais obscura.
Que é feito daqueles tempos idos?
Onde vivíamos um dia de cada vez,
Cada dia a seu tempo.

Hoje perdi-me nos meus pensamentos,
Fechado num mundo onde somos todos iguais
Cada um sendo quem é.
Sendo todos diferentes, mas ao mesmo tempo
Todos iguais.

Eu sei que ao descer, desço descalço (por Marc Rodrigues)





Eu sei que ao descer, desço descalço,
que o medo ergue-se em espinhos
e o degrau veste de escuro.
Eu sei que a verdade é um laço
bem feito de corda áspera,
em volta de um pescoço curioso.
Eu sei e adormeço num sono calmo.


Só para acordar num momento, pouco despertado
levantar e caminhar de corpo deitado,
procurar uma janela na parede escura,
tropeçar e cambalear no chão sonolento.

Sair à rua, dar de caras com um velho avarento,
que rosna sem ferrar e cospe no cimento
e afaga o pescoço que esconde com um lenço
e esconde no chapéu o rosto que talvez venha a ser meu
e desvia o seu olhar do rosto que talvez tenha sido seu.
Eu sei e acordo de um sonho agitado.

Levanto-me, banho-me, penteio-me, visto-me
engano-me, dispo-me, volto a vestir.
Dei por mim e o tempo passou, uns minutos.
Mas quantos não são a vida toda?
Eu sei e continuo numa vida calma.

Abro a porta e saio.
Eu sei que ao descer, desço calçado,
que o degrau é de madeira de pinho
e a clarabóia cobre-o de luz.
Mas não deixo de sentir espinhos
cravados nos meus pés nus.

Madrigal (por Bruno Teixeira)





A primavera da vida
expressa num quadro que
o artista, perdido numa alma
criadora, pinta, sem pincel,
linhas infinitas de sabedoria.

E o cântico da frescura
dos seus verdes anos, escrito
sob as oitavas de belos madrigais,
enaltece o doce encanto d’uma
écloga circulando pela natureza.

E, entre as tintas da imaginação,
surge uma obra de arte que, forjada
a partir da artificialidade d’um soneto,
voa por entre as estrelas e um luar
perdido na jovialidade do meu ser.

E uma criança, pura e inocente
e aos olhos d’uma mãe encantada,
tece seus passos pelo jardim
das suas memórias doces e amargas
rumo a uma mocidade cordial.

Poema Imortal (por Bruno Teixeira)





Lembras-te de quando nós éramos mais novos?
Lembras-te daqueles passeios pelos jardins onde chovia algodão branco?
Lembras-te ….. Se calhar não te lembras.

Éramos tão novos que todas as intermináveis êxtases que percorriam o nosso universo interior
estão agora sepultadas num jazigo sumptuoso.

Crescemos depressa! Crescemos com o objetivo utópico de alcançar a perfeição
e de sermos tão perfeitos como Deus, pois Deus criou o mundo em sete dias.

Descobri que isso era simplesmente impossível!
É impossível, pois rapidamente mataríamos Deus
e perderíamos no nosso propósito de alcançar a perfeição!
Tudo seria aborrecido!

O céu é azul, as nuvens são brancas, a relva é verde
e o sangue que atravessa o nosso corpo é vermelho;
o pensamento é inevitavelmente inútil quando se busca a perfeição
e o conformismo é apenas o chão que nos segura!

Sou mortal! Sou tão mortal que até chego a tornar-me imortal! (metaforicamente falando….)
Contudo, sou mortal e só isso interessa!

Sou mortal, porque o verdadeiro significado da palavra não me deixa ser o contrário.
Sou um homem e ser homem é ser um homem como todos os outros!
A isso nunca irei fugir. A isso nunca irei fugir!!!!

Nunca irei fugir, porque isto corresponde a uma verdade tão brutal
que essa própria verdade me esmaga contra uma parede de betão
como se para universo eu fosse apenas uma simples mosca.

Ouviste, camarada! Somos apenas moscas no meio de um universo cósmico!!!!
E é essa a grande verdade…..uma verdade pura e singela…..
……tão pura e singela como o ar que respiramos.

As flores despertam do seu sono (por Joana Montenegro)




As flores despertam do seu sono placidamente,
Na matina sóbria e lúcida,
Libertando-se da escuridão que as cegam,
Deixando a máscara da infelicidade!

As flores, reerguendo-se da melancolia,
Balançam ao som da melodia da brisa do mar,
Aproveitando o despojamento da franqueza,
Recuperando a sanidade harmoniosa.

As flores, tingindo-se da sua ventura,
Desfrutam da sua ingenuidade,
Livres das correntes que as aprisionaram,
no tempo da negridão!

As flores, esses seres puros e belos,
Aproveitando a frugalidade da vida,
Rodopiam nos seus movimentos desalinhados,
Sentindo as vibrações da leveza dos seus passos!

Sarcasmos Irónicos (por Joana Montenegro e Bruno Teixeira)




O sarcasmo da alegria, a ironia da tristeza,
todo o riso de uma essência perdida
em fábulas de puro encanto e desengano.

E eis que toda a alma do doce devaneio se
desvanece na mente sã de um pensador decadente…

E eis que os versos de uma esparsa, brilhando
em cada escansão métrica, canta a virtude
e a prudência de um coração puro e jovial.

Poetas e prosadores, em devaneios líricos
e prosaicos, cantam seus sonhos mais
loucos em torno da fogueira em que ardem
os cavaleiros da velha e metuenda ordem.

Em cada verso a nova mocidade,
e em cada rima a ideia rejuvenescida;
em cada palavra o sorriso
e o encanto da nova era.

E os génios (ou as almas que já não têm)
permanecem serenos em cada ritmo, cada melodia
que da musicalidade e do lirismo emana.

E os mestres cancioneiros, pura delícia
da arte clássica, choram suas lágrimas
nas estrofes das suas elegias e éclogas.

E essa literatura mundana,
que acalenta a alma dos poetas,
é heterogénea, livre como uma pena;

É fluída como uma bailarina
no seu pleno movimento astral,
a Arte na mais singela pluralidade.